O Islã é vítima de pregadores leigos, afirma estudioso do Corão

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Unammedz que muitos interpretam sem nada enteder do Corão|Foto: BLUM/Divulgação
Muhammad diz que muitos interpretam sem nada entender do Corão, o Livro Sagrado|Foto: BLUM/Divulgação

Tradução e adaptação Maria Wagner

Faz mais de uma década que os muçulmanos estão nas manchetes dos jornais. E não é por uma boa causa. Pelo contrário. A partir de setembro de 2001, quando um atentado terrorista assumido pela Al Qaeda levou ao chão as torres do Waldorf Center, em Nova Iorque, o mundo sente medo do fanatismo religioso dos seguidores de Maomé. A tragédia com o A320 da Germanwings nos Alpes franceses, na semana passada, teria a participação de terroristas?

Muhammad Murtaza é muçulmano e especialista no Islã. Ele salienta que o medo tem razão de ser em relação aos terroristas, mas não se justifica qunato às “revelações” deixadas por Maomé no Corão, “seguidamente interpretado por gente que nada entende do livro sagrado – sagrado para os islâmicos”. Pierre Vogel é um deles, afirma em entrevista a Parvin Sadigh, e a comunidade muçulmana não deveria ouvi-lo.

Murtaza trabalha na Fundação Weltethos. Também escritor, é autor do livro “Islam. Eine philosophische Einführung und mehr” (Islã. Uma filosófica iniciação e mais, em tradução literal), que lançou em 2014. A entrevista com ele foi publicada na versão online do jornal Die Zeit e nela o leitor encontra o eco das declarações de outros especialistas no mundo árabe/islâmico.

Entre eles, Usama Hasan. Na avaliação deste estudioso, o Islã parou no tempo, fez um retrocesso e se encontra em estágio medieval. Em entrevista a Sílio Boccanera, exibida pela GloboNews em 2012 e reapresentada depois do atentado em Paris – ao Charlie Hebdo -, ele se refere às ações terroristas como sendo uma versão da Inquisição praticada pela Igreja Católica quando condenou à morte quem se opunha ao Credo.

Na visão de Murtaza e de Hasan, o ressentimento provocado pelas cruzadas cristãs e as humilhações posteriores impostas ao mundo árabe pelo Ocidente são ingredientes que mobilizam os terroristas do Estado Islâmico – o EI. Na entrevista que segue, Murtaza fala sobre a importância que a cultura e a língua árabe tiveram no passado, influenciando o Ocidente em vários setores. Há, segundo ele, uma espécie de saudade desse tempo entre muçulmanos.

P – Senhor Murtaza, mais do que a metade dos europeus sente medo dos islâmicos, embora estes se vejam como tolerantes em relação a outras religiões. Por que isso acontece?

Muhammad Sameer Murtaza: Depois do Cristianismo, o Islã é uma das comunidades religiosas mais visíveis na Europa: vemos mesquitas nos centros urbanos, mulheres com as cabeças cobertas por véus; vemos como as cantinas de escolas e universidades respeitam as regras que os muçulmanos seguem quando se trata de alimentação. Essa abertura europeia no que toca às religiões pode levar pessoas a sentirem-se estranhas em sua própria pátria e ao medo em relação às mudanças sociais. Mas uma sociedade que não muda – imersa nos próprios valores – é uma sociedade morta.

P – Por isso as pessoas acreditam que o Islã significa violência?

Murtaza: O segundo motivo da islamofobia é que desde o 11 de Setembro (2001), o Islã é tido como uma religião que pratica o terror. Muçulmanos morrem em nome de Deus, em nome do profeta, em nome do Corão. A culpa dessa imagem negativa é dos terroristas. O medo do terror em nome do Islã que as pessoas sentem é, portanto, justificado. Mas, graças a Deus, desde 2001 também aprendemos que esses terroristas são uma minoria problemática dentro do próprio Islã; eles matam todos, não muçulmanos e também muçulmanos. No final das contas, este é um problema conjunto e só podemos resolvê-lo de mãos dadas.

P – O próprio Islã precisa se reformar?

Murtaza: Não precisamos de uma reforma do Islã, mas de uma leitura ética e racional das revelações que compõem o Corão. Ele surgiu na raiz da sociedade árabe no século VII. Naquele tempo, valores universais foram influenciados pela cultura, pelo pensamento, pela estrutura socioeconômica e pela língua árabe. Uma leitura literal do Corão feita hoje não somente ignora os valores universais, mas também oferece um modelo para a tirania religiosa. Muitos muçulmanos sentem-se confortáveis com isso e veem o passado como um tempo dourado que desejam recuperar e reinstalar no mundo. Isso mobiliza inclusive arqueólogos cujas forças mentais estão voltadas para o retrocesso e não para o futuro.

P – Arqueólogos? O senhor se refere aos salafistas ou aos jihadistas?

Murtaza: Sim. Eles esquecem que viver é mudar, trocar. Não levam em conta que uma regra considerada justa no tempo do profeta pode ser absolutamente injusta no contexto de outra sociedade. Por isso, é tão importante que a compaixão e o amor ao próximo sejam o fundamento ético de uma interpretação do Corão.

PComo deve ser lido o Corão?

Murtaza: Deveríamos compreender a “revelação” que ele contém como um bem que nos foi confiado. O sentido de justiça, o ser humano só encontra nele através da leitura orientada pela busca científica, na qual o leitor consegue separar suas próprias emoções do texto. Claro, a interpretação faz parte do conhecimento religioso de uma comunidade de fieis, mas ela não deve ser vista como sendo a religião. É somente uma tentativa de aproximação ao sentido de justiça divina, que prega humildade, sensatez e tolerância tanto entre os islâmicos quanto do Islã em relação às outras religiões.

P Isso quer dizer que a violência que vemos é parte da interpretação que se faz hoje do Islã?

Murtaza: Cada religião e cada visão do mundo comporta um potencial de paz e de violência. As próprias comunidades religiosas decidem sua direção. Depois de três mil anos de Judaísmo, de dois mil anos de Cristianismo e de 1.400 anos de Islã se vê que a História das três religiões descendentes de Abrahão não é dominada por assassinos e criminosos. Mas a natureza – essência – dessas três religiões foi pervertida.

A origem dessa violência desencadeada em nome do Islã está no que se seguiu à queda do reino de Osman e ao colonialismo. Os dois causaram a destruição da infraestrutura de ensino e conhecimento. Durante a colonização e depois dela, principalmente leigos passaram a pregar o islamismo. Era gente como Hasan Al-Banna e Sayyid Qutb, que transformaram o jihad como compromisso individual de cada muçulmano, estilizando-o como ideal revolucionário romântico de libertação. Essa mesma crise de conhecimento sobre o islamismo temos atualmente na Europa, onde até agora não existe uma estrutura de ensino do Islã. Também aqui domina a pior espécie de leigos, gente como Pierre Vogel, Sven Lau ou Abou-Nagie, pregando sobre o Islã para um grande número de muçulmanos. Pierre Vogel fala sobre o Islã em 30 segundos. O profeta Maomé levou 13 anos, na Meca. O que diz essa comparação sobre Pierre Vogel e os iguais a ele? Diz que desinformados e cabeças ocas estão ensinando o Islã.

PPor que os muçulmanos sentem-se ofendidos quando Maomé é caricaturado?

Murtaza: O profeta Maomé é o modelo de vida para cada muçulmano. Na Meca, os politeístas seguidamente riram dele ou o ofenderam, mas ele não se deixou provocar; não se defendeu. Cada muçulmano conhece a história de quando um beduíno entrou em uma mesquita de profetas e lá urinou na frente de todos. Os seguidores do profeta ficaram furiosos, mas Maomé manteve a serenidade e ordenou que jogassem um balde de água no local onde o homem havia urinado. Quem acredita nas revelações do profeta responde com a mesma indiferença a outras ofensas. A fé do muçulmano que reage com acesso de raiva a cada caricatura se transforma em ressentimento porque ele não consegue ficar indiferente.

E as caricaturas realmente se divertiram à custa do profeta? Acredito que não. Mais do que isso, chamaram a atenção sobre uma contradição: como pode ser que nós, muçulmanos, vejamos o Islã como a religião da paz se terroristas islâmicos justificam seus atos com essa religião? É assim que entendo essas caricaturas.

PMas muitos muçulmanos entendem isso de outra forma.

Murtaza: Dentro da comunidade muçulmana global há um racha sobre como o Islã deve ser no mundo moderno. Trava-se uma luta por mentes e corações. Deve o Islã ser uma religião violenta e niilista que despreza o ser humano? Ou deve se ocupar da fé, desenvolvimento pessoal, vocação para a liberdade, democracia, abertura, curiosidade, amor ao próximo, criatividade e à disposição de “estar-com-pessoas”? Quanto tempo essa luta ainda vai durar, quanta violência ainda veremos isso não sei. Se todos nos responsabilizarmos por essa comunidade religiosa, também pela crueldade praticada em nome dessa religião e pelo sangue colado nela, então acredito que ela encontrará o caminho de volta à sua essência e poderá abrir um diálogo aberto com nações, outras religiões e visões de mundo.

PA solidariedade expressa em “Je suis Charlie” é um bom começo para uma ação comum?

Murtaza: Sim, e há mais acontecendo: na imprensa árabe, o atentado Charlie Hebdo foi condenado. O jornal egípcio Al-Shuruq reproduziu as caricaturas na primeira página. Também na Alemanha, todas as associações muçulmanas condenaram o atentado. No Facebook, muçulmanos colocaram o banner “Je suis Charlie”. Um número cada vez maior de islâmicos se esforça para impedir que a violência manche a imagem de uma religião que tem mais de 1,5 bilhão de seguidores no mundo.

Depois do terror na França estamos em pedaços. E sabemos que a desconfiança contra os que professam a fé muçulmana vai continuar aumentando e que, no futuro, seremos vítimas de mais ofensas. Também a política se verá obrigada a tomar decisões em nome da segurança, vendo os islâmicos como risco. O que podemos fazer? Mais do que em qualquer outro tempo, precisamos mostrar aos não muçulmanos que o Islã é diferente da imagem que as ações terroristas espalham pelo mundo.


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