
Francisco Mateus Conceição (*)
Findadas as eleições municipais brasileiras, restou o claro quadro de uma derrota eleitoral do PT e da esquerda em geral. Frente a isso, há os lacradores de ocasião, que anunciam isso com a pompa e a solenidade de quem está fazendo uma grande descoberta. E, de outro lado, quem tente colocar eufemismos ou atribuir nossa derrota tão-somente à maneira como as forças conservadoras estão organizadas. Neste último caso, quase equivale a dizer que perdemos porque o adversário foi mais forte, o que, por mais estranho que pareça, atua como engenhoso discurso autojustificador. E, claro, também existem algumas análises que se propõem a escapar desses dois polos, procurando, efetivamente, descobrir e apontar caminhos para a esquerda.
É momento de olhar, com espírito crítico e a máxima serenidade possível, para as nossas dificuldades, que são humanas e históricas. Temos que nos superar, para enfrentá-las e superá-las também. Pretendo expor aqui um aspecto, que considero importante, do nosso problema. Há outros, paralelos a esse ou que fundamentam essas dificuldades. Analisá-los requer, além de firme compromisso político, grande capacidade intelectual, atributos esses que, como se diz popularmente, “não dão em touceira”.
O que escrevo não é uma constatação pós-eleição de 2024, nem está somente relacionado a esta eleição. Considero um fenômeno próprio da esquerda brasileira, que ficou evidente nas últimas décadas, especialmente a partir de 2003. Somos bons e aguerridos para fazer oposição e também para resistir, quando é isso que necessitamos. Mas não sabemos lidar com o poder quando ascendemos ao Executivo.
Em realidade, como vimos nos governos pós-2003 e atual, ocorre uma confusão completa entre governo, partido político (com destaque para o PT) e movimento sindical e social (com destaque para o segmento cutista). Cito esses dois, porque é deles que ainda espero muito. Foram principalmente eles que muito fizeram para o crescimento político da esquerda no país nos anos 1980 e 1990, oportunizando todas as conquistas que vieram depois. Na época, eu estava entre o que tinham reservas quanto à composição política que se fez para chegar ao Executivo, ao “Lulinha Paz e Amor” e por aí. Penso hoje que essa composição era, sim, necessária. Chegar ao Executivo exigia concessões, inclusive a um vice de outro partido, como nos governos seguintes e no de hoje. Não há erro nessa construção política, antes pelo contrário. O erro está em não entender que as concessões são somente do governo e não do partido, muito menos do movimento social. O governo pode e deve fazer alguns enfrentamentos, mas em razão das alianças que faz para vencer a eleição e para poder governar, tem muitos limites para isso. O partido, sindicatos e movimentos sociais não os têm e, por isso, não podem ser moldados – como infelizmente ocorreu e se repete agora – pela política de conciliação que caracteriza o governo.
Se observarmos o governo atual, podemos dizer que poderia ser mais ousado em algumas coisas, mas, a rigor, de maneira geral e por incrível que pareça, tem sido mais aguerrido que sua própria base. Poderíamos, por exemplo, ter feito uma grande mobilização para baixar as taxas de juros, com isso politizando a sociedade, mas não o fizemos. Vi o Lula bradando quase sozinho contra as altas taxas. Também vi o Lula, e até o Haddad, defendendo impostos sobre grandes fortunas. E nenhuma mobilização da base. Deveríamos tomar iniciativa sobre assuntos dessa ordem, mas nem para ecoar o Lula fomos capazes. Agora que a Câmara dos Deputados rejeitou a taxação sobre grandes fortunas e que, do ponto de vista interno, a “Bela Inês” é morta, vamos reclamar contra o corte de gastos? E contra o próprio governo federal? Esquerda que se mobiliza com atraso e contra o alvo errado é tudo o que a direita quer.
Mesmo quando estamos resistindo ou fazendo oposição, já trazemos, em nossa forma de agir, as marcas da nossa incapacidade de atacar efetivamente o adversário. Em texto que escrevi em 2021, significativamente intitulado “Esquerda: para além da resistência”, observava que nossas pautas eram apenas de negação: ao próprio governo e a suas políticas. Apesar de toda nossa indignação e até mesmo da bravura com que lutamos nesse período, acabávamos sendo pautados por aquele governo. Sob o prisma da negação do que ali estava, não nos empenhávamos por manter vivas outras e imprescindíveis bandeiras da esquerda. Por que isso? Talvez porque elas já não estivessem tão fortes. Sabíamos muito bem o que negar. Mas o que afirmar?
Ainda não sabemos assumir o papel de protagonistas da história. Por isso, após a vitória com Lula, nos encolhemos. Nós que fomos às ruas repetidamente, enfrentando o coronavírus, com máscara e medo, sob a violência bolsonarista instituída, praticamente enrolamos as bandeiras depois disso, como se não mais houvesse necessidade de luta coletiva. E sabem quando fizemos novamente uma mobilização política significativa? Quando foi necessário reagir contra o PL do estupro. Mostramos que temos capacidade de mobilização, desde que provocados, levados ao limite da nossa capacidade de suportar, no fundo, pautados.
Por contingências da história e de nossa capacidade de organização, temos sido fortes nos momentos de resistência, mantendo vivas nossa coesão e nossas referências. Preservamos, assim, uma forte capacidade de mobilização, mas, em momentos como o de agora, deixamos essa força literalmente inativa. Um exemplo disso: este ano pipocaram greves de servidores públicos. Todos democraticamente lutando pela reposição de perdas acumuladas no período do golpe (Temer e Bolsonaro). Para além das assembleias das categorias, houve produção de material de comunicação, contato com a comunidade e, principalmente, inúmeras caravanas a Brasília, onde se fizeram acampamentos, protestos e até o cumprimento de agendas com o Congresso Nacional. Pergunto: aproveitou-se para levantar alguma bandeira geral? NÃO. Cada categoria lutava pelo seu quinhão. Não havia pautas gerais, como, em outros tempos, as mobilizações sindicais faziam. E se não fazemos isso, o discurso da esquerda definha dentro da sociedade, como vem acontecendo. E hoje, usando a metáfora bíblica, já não basta semear, porque a terra está ficando árida para nós. É preciso cuidar persistentemente do solo.
Mesmo as parcelas mais inconformadas da esquerda, que clamam por maior mobilização, geralmente apontam o governo federal como o necessário carro-chefe dessas mobilizações. No fundo se esperam dele, as obras, a política e a politização. Nós, que surgimos com o forte discurso de contraposição ao paternalismo, estamos, neste momento, aguardando tudo do grande Pai Lula.
Claro, outros componentes que afetam o desempenho da esquerda brasileira no período atual não podem ser desprezados. Mas nada mudará enquanto não superarmos a postura reativa que nos caracteriza. Existem as modificações nada desprezíveis no mundo do trabalho, a expansão da tecnologia digital, entre outros. Porém, elas não minimizam nem autorizam o pouco caso com pautas históricas – como redução da jornada de trabalho, por exemplo – ou gerais – como as já referidas neste texto. Sobre isso, aliás, tratei, após o fracasso da mobilização do 1º de Maio, no texto “Pautas para a esquerda”.
E é uma pena que isso se dê, sobretudo porque temos, em minha opinião, diante de nós, uma possibilidade rara de transformação da sociedade brasileira. A volta de Lula ao poder simbolizou uma virada de jogo na política brasileira, uma resposta ao golpe de 2016, oportunidade que os golpeados de 1964 não tiveram. Esse fato político recuperou, na sociedade, um indiscutível anseio de participação política. Vejo muita gente ativa, boa e capaz em diversos espaços de organização popular. Mas não percebo uma coordenação que aglutine tudo isso para ações e movimentos de amplitude nacional. Talvez, como se diz por aqui, o cavalo esteja passando encilhado, porque quando podíamos e devíamos avançar, decidimos nos encolher.
Mas, bem, se não somos ainda capazes de passar da reação para a ação, que pelo menos comecemos a reagir logo, já que as eleições municipais nos passaram um recado inequívoco. Não basta resistir. Para além da resistência ou da re/existência – que é bela, constituidora e necessária –, precisamos ter o ímpeto e a gana de agir e transformar.
(*) Servidor Público Federal, Doutor em Literatura
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