Opinião
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25 de novembro de 2024
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09:28

Ajustando as metas da política econômica brasileira ao novo governo dos EUA (por Flavio Fligenspan)

Trump foi eleito para novo mandato nos EUA. Foto: RS/Fotos Públicas
Trump foi eleito para novo mandato nos EUA. Foto: RS/Fotos Públicas

Flavio Fligenspan (*)

Donald Trump foi eleito para um segundo mandato nos EUA e logo fez seus primeiros anúncios de políticas e de pessoas para comandar áreas importantes de seu Governo. Os anúncios confirmam o que o candidato dizia em campanha, prometendo um governo mais duro e radical à direita do que em sua primeira experiência. Sejam as medidas diretamente vinculadas à área econômica, como o aumento de tarifas para produtos importados, especialmente em relação à China, sejam as com consequências na economia, como a promessa de expulsão em massa de imigrantes, tudo leva à projeção de aumento da inflação americana, ao fortalecimento do dólar no mercado internacional e a uma resultante elevação dos juros.

 Dado o peso da economia americana na economia internacional e dada importância do dólar nas relações econômicas mundiais, tanto na área comercial e de serviços como na financeira, haverá um natural transbordamento dos efeitos desta economia para os demais países. Como se adaptar e como tentar se proteger?

No caso do Brasil, é incerto o resultado de tamanha mudança nas relações comerciais, visto que o aumento de tarifas de forma diferenciada por países e por grupos de produtos deve alterar todo o jogo de forças ora em vigor. Nós podemos nos beneficiar de mercados hoje atendidos por países que serão alvo da política de Trump, mas certamente seremos afetados direta e indiretamente pelos efeitos de tais medidas em várias frentes.

Na área financeira e cambial, há menos incertezas, pois é possível projetar que um dólar mais forte traz mais consequências negativas do que positivas e juros maiores lá levam normalmente a juros mais altos por aqui. Isto sem falar nos efeitos de encadeamento entre estas variáveis, como por exemplo, inflação maior no mundo eleva preços de bens importados pelo Brasil, e logo a seguir se transforma em aumento da inflação e dos juros domésticos. Ou, noutra possibilidade de encadeamento, dólar mais forte no mundo também aumenta os preços dos produtos importados e gera as mesmas respostas de aumento da inflação e dos juros no Brasil. 

Pois bem, se mudam os parâmetros de funcionamento da economia internacional de forma tão intensa, deveríamos manter as mesmas metas internamente? Se a inflação mundial vai aumentar e o dólar vai ficar mais caro, é possível fazer a economia brasileira funcionar como se vivêssemos na ausência destes fenômenos? Tudo indica que não.

Já critiquei várias vezes neste espaço a atual meta de inflação brasileira de 3%, com margem de 1,5 ponto percentual. Com as características estruturais da nossa economia e, especialmente, com o nível de indexação que ainda vigora, a meta de 3% é muito baixa. Para atingi-la, o remédio único do sistema de metas adotado por nós – a alta dos juros – é muito duro. Se já é assim hoje, será muito pior nos novos tempos sob impacto das políticas de Trump. A tentativa de manter esta meta forçará, inevitavelmente, um aumento significativo dos juros, pressionados pelos fatores discutidos anteriormente.

No plano fiscal, as consequências também serão importantes, tanto pelo aumento dos juros que incidirão sobre a rolagem da dívida pública, como pela queda relativa da arrecadação tributária em função de um crescimento menor da atividade. Diante de um quadro fiscal já bem difícil no presente, um rearranjo de metas também será inevitável nesta área. Enfim, não haverá como ficar imune às transformações que ocorrerão com certeza daqui para a frente. Ignorá-las, e tentar manter objetivos já hoje difíceis de alcançar, contribui apenas para aumentar ainda mais os juros, forçar ajustes mais fortes da administração pública no curto prazo e, por fim, obter resultados aquém das promessas, passando a sensação pública de fracasso governamental, com grande repercussão política. Afinal, se mudam os parâmetros, devem mudar os objetivos e as metas propostas anteriormente. 

(*) Professor Aposentado do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFRGS

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