Por Dinho Daudt
Canal Globo News (Sky) apresentava, às 06h, reprise de Espaço Aberto. Programa de entrevistas, em estúdio, com apresentação de Alexandre Garcia e suscitou esta coluna. Convidados, insólitos, eram doutores com pós-doutorado em Gestão do Esporte e Sociologia do Esporte e, como assunto, o da hora: Copa do Mundo. Por não se tratar de emissora nem programa ou jornalista especializados no esporte achei o tema, além de raro em seu enfoque, oportuno para reflexão.
A comparação incomum que o mediador e os entrevistados estabeleciam do momento da Copa com outras áreas como civismo, patriotismo, política e questão social atraiu meu interesse em particular. Achei instigante questionarem e debaterem entre si e com o apresentador temas assíduos em bate papo diários, embora, quase sempre, analisados isoladamente. Tipo um tabu. Mantido cada um, cuidadosamente, em compartimento estanque, evitando desastroso curto circuito, desentendimentos e discussões mais acentuadas até entre colegas que torcem pelo mesmo time e são do mesmo partido político. Ou vice-versa.
Seja em casa, na rua, no trabalho, em colégios e universidades ou no bate bola com companheiros é sabido serem a política partidária e o esporte como água e azeite: não se misturam. Não dá liga. É sabedoria popular e tanto os detentores de cargos eletivos, quanto cartolas de clubes tentam evitar confundir estes temas seja em público ou diante da mídia. E não raro, na ausência de providencial sutileza, podem até ratear e se bicam, quando um dá palpite ou resolve tirar proveito em cima da exposição institucional ou momentânea do sucesso do outro.
Há casos, nesse momento da Copa, cômicos para a platéia e trágicos para os protagonistas de certos figurões encostando, inadvertidamente, junto à hélice, emitindo comentários exógenos de causar arrepios em seus assistentes de comunicação. Mesmo os personagens mais respeitados e extremamente populares em seus devidos setores, como Lula e Dunga, submetidos ao brete do protocolo, seja num encontro ou separadamente, respondendo a perguntas que caberiam ao outro, volta e meia pagam ou tangenciam um mico. A história traz exemplos bem conhecidos deste relacionamento difícil, quando não mal sucedido, entre esportistas e chefes de Governo.
Lembro em 70, como o lendário “Comentarista que o Brasil Consagrou”: João Saldanha, o João Sem Medo, então técnico da equipe brasileira foi afastado do comando do “escrete” nacional pelo presidente da CBD, João Havelange, por negar-se a convocar Dario, o Peito de Aço, jogador sugerido pelo então presidente da ditadura, Emílio Garrastazu Médici. Classificado com sua equipe à fase final que levaria ao tricampeonato no México, Saldanha teria dito a Médici: “O senhor escala seu ministério e na Seleção mando eu”. E Saldanha acabou substituído por Zagalo. E, mais recente, na Copa de 2006, passando pelo incidente do bate boca pela imprensa que poderia ter sido evitado envolvendo o presidente Lula e Ronaldo, o Fenômeno, quando este foi criticado por “aparentar” uns quilinhos a mais, ainda na fase de preparação para o mundial na Alemanha. E chegando, agora, à despedida da atual Seleção, na cerimônia, em Brasília, onde Dunga, em aparente frieza, sem nenhum sorriso, com uma das mãos apertava a mão do presidente mantendo a outra enfiada no bolso da calça. Ambos davam a impressão de terem deixado o abraço para a volta. Para o torcedor brasileiro esse tipo de relacionamento entre política e esporte é resolvido de maneira irreverente, “no popular”. E todo presidente é vaiado quando tem a presença dele anunciada no Maracanã.
Ano atípico
No programa da TV, o entrevistador instigava os doutores do esporte, lembrando que o Brasil atravessa em 2010 um ano atípico. Quando todo cidadão terá oportunidade, tanto no esporte como na política, em demonstrar seu grau de civismo e patriotismo.
A iniciar pela Copa do Mundo e o sonho do hexa, passando pela Semana da Pátria, em setembro e chegando às eleições, próximas ao final do ano. Nelas escolhemos deputados, senadores e o sucessor de Lula. Mais relevante ainda se levar em conta o índice de aprovação e de identificação inéditos já obtidos por um presidente e seu Governo. E o teste a que irá submeter-se, indicando como sua sucessora uma mulher. Um fato inusitado, que promete aquecer a audiência nos debates e na própria campanha.
Obtive insistentes críticas de minha mãe, quando veio me visitar, ainda em maio, em Garopaba, pela insuficiente atenção dispensada a ela em troca de uma busca (quase) permanente que mantinha na internet, rádio e TV às notícias sobre esporte. Isto um mês antes do Campeonato Mundial de Futebol. Politizada, ela tem muito orgulho em ter um neto deputado e outro vereador no Rio.
Além de uma neta, criada por ela, vereadora em Porto Alegre. Viúva, acompanhou o ex- marido, meu pai, já falecido no exílio dele no Uruguai, após o golpe militar de 1964. Em sua visão me comportava como um “alienado”, para utilizar uma expressão muito comum da época dela como militante política pela volta da democracia. Pois deveria me importar e pesquisar, seja como jornalista ou por também haver me conscientizado cedo, ao perder uma carreira militar incipiente, perseguido pela ditadura, por questões mais ligadas à política ou economia, por exemplo. E demonstrar maior atenção no que tange à saúde, segurança, educação, temas debatidos exaustivamente nas campanhas eleitorais e alguns programas na TV em que ela acompanha atentamente, ora examinando propostas ou avaliando opiniões.
Mas que percentual da população pensa assim hoje em dia? Por atenção a ela argumento a favor de minhas predileções, fazendo apologia ao esporte que pratiquei e assisto e à vida sarada que procuro manter. Entre as alegações que elenco em minha defesa e, agora da Seleção Brasileira, incluo a opinião popular ouvida no táxi, na praia, no ônibus e nos balcões da farmácia, da pecuária onde compro ração para minha gata de quatro patas e do cafezinho: “a política não nos dá a alegria que o futebol brasileiro nos traz”. Uma verdade irretorquível. Mesmo se o time amargar um mau resultado.
Outra coisa, vocês querem ver é a linguagem corporal observada nos atletas em campo. Os caras aparecem, em clubes e na Seleção, em imagens diretamente nos próprios estádios ou na TV, suando a camiseta, concentrados em seu trabalho, dando muito e por vezes quase tudo de si, não raro até o próprio sangue, nessas batalhas esportivas. Tendo a massa, a torcida, assistentes, ouvintes e a imprensa presentes, como testemunhas e inúmeros on line, acompanhando e vibrando com essas disputas acirradas e apaixonadas. Uma onda envolvente que ganha proporções de Tsunami, como agora, durante a realização do maior evento do gênero no planeta. Uma atração irresistível e uma autenticidade ancestral nas atitudes. Entrega e espírito de luta que remonta a história desde o início da civilização. Como no clássico circo romano. E ninguém contesta este fato, simplesmente porque se trata de uma paixão popular.
Portanto: “É melhor não resistir e se entregar”, como canta Lulu Santos. Ao passo que na política. Bem, acredito que a galera até anda certa em desprestigiar e malhar. Sem entrar em detalhes e muito menos citar nomes e fatos que falam por si próprios. E deixadas de lado raríssimas exceções, a política nacional, realmente oferece poucos atrativos, confiabilidade e esperanças. É uma triste constatação e vergonhosa realidade. E por incrível que pareça, cabe a nós mudá-las.
Escalação
A iniciar pela escalação dos políticos que escolhemos a cada eleição, sabiam? Já pensaram o brasileiro dispensando o mesmo tempo e interesse na escolha dos nomes dos candidatos, como dispensa e se interessa e debate e concorda e discorda sobre cada atleta convocado para representar o país? E passasse a torcer para que parlamentares e chefes de executivo acertassem como torce freneticamente, lance a lance, pelos jogadores? Conhecendo bem as regras e fiscalizando o trabalho dos juízes? Com a devida pilha dada pela imprensa, é claro.
Sem dúvida a gente também arrebataria títulos honrosos de campeão na saúde, educação e justiça social, com toda certeza. Mas sabemos que a política está longe de comover e muito menos empolgar quem por tantos anos se viu e vê traído em seus princípios, suas paixões e esperanças. Por isso a vibração, a crença, a emoção do gol e a alegria e o bom humor que caracterizam nosso povo até no exterior permanecem com o esporte e o encantamento do futebol.
Aos que acreditam que a política venha ocupar espaço semelhante um dia, deixo a frase do sábio Confúcio: “Sonhar com o impossível é o primeiro passo para torná-lo possível”. Eu me mantenho pragmático, observo e dou, ainda, inteira razão aos doutores que assisti nesta manhã chuvosa que antecedia a estréia do Brasil na Copa, quando disseram ao Alexandre Garcia o “óbvio ululante”, – aqui só para lembrar o mestre Nelson Rodrigues – mas que me serviu de referência acadêmica: Que o momento da Copa do Mundo, assim como o carnaval, é quando a nação se une como nunca em torno de seus ídolos, símbolos e ícones populares. “É a Pátria de chuteiras”.
No futebol, assim como nas escolas de samba resgatamos reis e príncipes. Uma junção harmônica de etnias, jamais encontrada em outras oportunidades. O racismo, mesmo o disfarçado, desaparece e os brasileiros vibram intensamente por seu país, por instantes em que até a marginalidade e o crime dão uma trégua, sem a necessidade da repressão. Incrível ! E nos orgulhamos como nunca, nesse momento, de ser brasileiros. Amamos o verde, o amarelo e o azul, nossa bandeira e nosso hino glorioso. E nosso Rei, Pelé, o qual tive a honra de ver jogar e conhecer, pessoalmente, que deslumbrou o mundo e deixou de herança um legado inesquecível de jogadas geniais.