
A conquista de Fernanda Torres como melhor atriz em drama no Globo de Ouro 2025 por sua atuação em Ainda Estou Aqui inspirou a indicação do nome da atriz a homenagens no legislativo de Porto Alegre e do Estado. Na Câmara Municipal, o vereador Roberto Robaina (PSOL) apresentou as proposições para conceder à artista o título de Cidadã de Porto Alegre e o Troféu Câmara Municipal de Porto Alegre. Na Assembleia, a deputada estadual Luciana Genro (PSOL) indicou Fernanda à Medalha da 56ª Legislatura.
Entre as justificativas para as homenagens, o vereador apontou não só a sólida carreira da artista no teatro, na TV e no cinema, mas a importância do reconhecimento de sua atuação como Eunice Paiva, mulher do deputado Rubens Paiva, torturado e morto pela ditadura militar, para manter viva a memória nacional sobre os anos de chumbo.
“Nestes tempos em que muita gente reivindica a ditadura e até idolatra torturador, é fundamental enaltecer trabalhos como o da Fernanda no filme de Walter Salles. A arte tem, entre outras funções, o papel de nos relembrar da história e, neste caso especificamente, de nos estimular a não parar de combater reacionários e golpistas que atentam contra as liberdades democráticas”, diz Robaina.
No mesmo dia em que o Brasil comemorava o prêmio de Fernanda Torres, o vereador Marcelo Ustra Soares (PL) levou à Câmara Municipal um exemplar do livro A verdade sufocada, escrito por seu primo e o coronel do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra. Na obra, Brilhante Ustra, que foi condenado em três instâncias por torturar presos políticos, dá sua versão particular do regime militar e dos crimes praticados por agentes do estado contra opositores. Também militar, o vereador Soares que foi eleito com 2.669 votos prometeu deixar o livro na sua mesa no plenário. Ustra morreu em 2015, sem punição.
Já no dia 1º de janeiro, o prefeito reeleito Sebastião Melo (MDB) equiparou pedir pela volta da ditadura militar com defender o comunismo ou o socialismo. “Se um parlamentar ou qualquer um do povo disser ‘eu defendo a ditadura’, ele não pode ser processado por isso, porque isso é liberdade de expressão”, afirmou, sendo aplaudido e vaiado pelos presentes no evento. “Mas também quero que aquele que defende o comunismo, o socialismo, dizendo que não acredita na democracia liberal, ele não pode ser processado, porque isso também é liberdade de expressão”, complementou.
No longa-metragem Ainda Estou Aqui, Fernanda Torres interpreta Eunice Paiva, advogada viúva do deputado federal Rubens Paiva, torturado e morto nos porões da ditadura militar. Ela foi uma ativista incansável na luta pelos direitos civis e dos desaparecidos deste período sombrio da história do Brasil. Atuou centralmente na busca de informações sobre o desaparecimento do marido, liderando campanhas para a abertura dos arquivos da ditadura e foi a principal impulsionadora da Lei 9.140/95, que reconhece como mortas as pessoas desaparecidas em razão de participação em atividades políticas durante a ditadura militar. Somente em 1996, ela conseguiu que o Estado brasileiro emitisse oficialmente o atestado de óbito do marido.
A homenagem à Fernanda Torres pela Câmara Municipal também é sustentada por um fato marcante, que coloca Porto Alegre no mapa da luta da família Paiva pela verdade. Em 2012, foram encontrados na cidade os documentos que comprovavam a entrada de Rubens Paiva como preso político no DOI-Codi do Rio de Janeiro, durante a ditadura militar.
O Exército jamais admitira envolvimento no sumiço do deputado. Os papéis estavam no arquivo pessoal do coronel da reserva Júlio Miguel Molinas Dias, assassinado no bairro Chácara das Pedras naquele ano.
O material foi base da reportagem exclusiva do jornalista José Luis Costa, à época repórter do jornal Zero Hora. O mandato do vereador Robaina procurou o jornalista para retomar os detalhes da reportagem. O trabalho recebeu o Prêmio Esso de Jornalismo na categoria nacional, a maior distinção recebida pela imprensa gaúcha até hoje.
A deputada estadual Luciana Genro, líder do PSOL na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, apresentou proposta semelhante ao parlamento estadual, indicando Fernanda Torres à Medalha da 56ª Legislatura. Luciana é filha do ex-governador Tarso Genro, que, durante a ditadura, exilou-se no Uruguai para não ser preso.
“Homenagear a Fernanda, que interpretou com tanta força e respeito a Eunice Paiva, é homenagear a luta de todas as famílias, inclusive a minha, que sofreram e ainda sofrem os horrores daquele período. Através dela, queremos dizer: Ditadura Nunca Mais!”, afirmou a parlamentar.
Luciana ainda propôs à Secretaria da Educação (Seduc) a inclusão do livro “Ainda Estou Aqui” no acervo das bibliotecas das escolas públicas estaduais do Rio Grande do Sul. “Ao adotar essa iniciativa, estaremos não apenas aproveitando o momento de grande visibilidade da obra, mas também contribuindo para a formação de cidadãos mais críticos e conscientes de seu papel na
construção de um futuro mais justo e democrático”, justificou a deputada, que colocou o mandato à disposição para avaliar uma possível emenda a fim de financiar a compra dos exemplares.
As proposições das homenagens, tanto na Câmara Municipal quanto na Assembleia Legislativa, devem passar por votação nos plenários.